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OS ANIMAIS ESTÃO NAS RUAS E A INDIFERENÇA, DENTRO DAS CASAS E DOS CORAÇÕES

06-11

Por mais que o número de pessoas envolvidas na causa animal tenha aumentado a cada dia, a quantidade de animais abandonados e maltratados, agredidos covardemente, multiplica-se assustadoramente no nosso meio. A crueldade e a violência estão incorporadas à sociedade. Jean-Jacques Rousseau escreveu que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe.” Precisamos, pois, mudar a sociedade.

Um dia dessa semana, mais um cão vagava perdido na orla da lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Tratava-se de um mestiço de poodle, branco, na verdade, já meio marrom de terra, com uma coleira muito apertada no pescoço magro e com o pelo muito embolado. Um rapaz, morador da Av. Otacílio Negrão de Lima, colocou-o para dentro do seu portão, providenciou comida, água e abrigou-o na garagem.

Num outro dia, no entanto, fazendo a caminhada diária pela orla, duas senhoras, ambas “cachorreiras”, viram o cão próximo ao portão com a aparência sofrida e preocuparam-se com o estado do animal. Foram até o portão, tocaram o interfone. A seguir, veio atender um rapaz educado, um tanto apressado, mas deu-lhes total atenção e explicou-lhes como o cão foi encontrado. Contou ainda que tentou dar-lhe um banho, mas o cão rosnou e demonstrou-se arredio. Mesmo assim, resolveu mantê-lo em casa. Ao ser questionado sobre o que pretendia fazer com o cão, o rapaz respondeu que não sabia porque estavam para se mudar e confessou que, sinceramente, não gostava de cães. As duas então se preocuparam com o cão, ficaram surpresas. Afinal, se não gostava porque o teria resgatado? Fizeram então essa pergunta ao rapaz que respondeu prontamente que, apesar de não apreciar cães, sentiu-se compadecido pelo animal tão maltratado, frágil e perambulando pela avenida, “correndo o risco de ser atropelado a qualquer instante”. Sendo assim, tomou a atitude de socorrê-lo. Nesse momento, o cão pulou no rapaz, mexendo o rabinho, esfregando a carinha nas pernas dele, como se tivesse compreendido tudo que estava sendo conversado ali. O rapaz admirado disse que daria o banho e continuaria cuidando do peludo, mas pediu às duas mulheres que o ajudassem a conseguir adoção para o cãozinho. Trocaram telefones e ficou tudo acertado assim.

O mais intrigante nessa história nem é o comportamento agradecido do cão. É sabido que os cães são inteligentes e compreendem bem mais que têm conhecimento algumas pessoas. O que nos leva a refletir é a atitude daquele jovem que declaradamente não simpatiza com cães ser tão destoante de muitos que se dizem admiradores deles.

Quantas pessoas hoje passam por animais abandonados pelas ruas e não se importam com eles? Pessoas que compram um cão ou um gato “de raça” e levam para casa certos de que adquiriram algo de muito “valor”. O que faz aquele rapaz tão diferente da maioria das pessoas que adora colocar no colo um animalzinho bem tratado, entretanto é incapaz de sensibilizar-se por aqueles outros, da mesma espécie, todavia menos saudáveis e perfumados, mas abandonados e carentes?

Que tipo de lente falta ao ser humano para que consiga enxergar os seres desprotegidos e necessitados que estão por todas as esquinas precisando de socorro? Grande parte das pessoas se orgulham de serem caridosas, providas de sentimentos de justiça e de solidariedade. O que acontece com toda essa bondade quando cruzam com seres a beira da morte por todos os cantos da cidade e seguem para suas vidas de futilidades e seus comportamentos perdulários? A responsabilidade recai sobre aqueles que um dia se importaram e nunca mais conseguiram nem quiseram ignorá-los.  Portanto, passam as suas vidas sofrendo por não poderem tirá-los todos do abandono e do sofrimento. Enquanto isso, os nobres cidadãos justos e bondosos da sociedade se resguardam o direito de não moverem um dedo em prol dos sofridos seres que sobreviveriam melhor se, no mínimo, não fossem apedrejados, queimados e até mesmo estuprados.

Algumas vezes é possível ver uma pessoa ater-se a um animal morador das ruas e jogar-lhe um pedaço de pão ou qualquer resto de alimento. O mais estranho é a expressão do rosto dessa pessoa. Não é possível saber com certeza se trata-se de compaixão, irritação ou até mesmo vergonha. A grande escritora Clarice Lispector, observadora da alma humana, aborda sentimento semelhante no texto “As caridades odiosas”. O conto narra a história de uma mulher que teria dado a um menino negro, dentro de uma confeitaria, doces que ele pedia a todos que ali entravam. Depois da caridade, a personagem diz: – … temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora, sozinha, meus pensamentos voltavam lentamente a ser os anteriores, só que inúteis. (…) O que sabemos nós sobre caridade? Sabemos ao menos que compaixão e atitude precisam caminhar juntas?

Sentimentos de compaixão sem obras não tornam ninguém melhor. O mundo necessita de ações. Se somos cristãos, lembremo-nos de que “a fé sem ações é morta.” (Tiago 2:26) Paulo escreveu aos Coríntios que “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (Cor. 13:1) E todos sabemos que o amor se revela por atitudes sinceras que mudam a vida do outro. Salomão disse: “O justo olha pela vida de seus animais…” (Prov. 12:10)  E para os céticos, o que seria do mundo se grandes realizadores não tivessem existido?

O ser humano precisa se voltar para sua essência e buscar sua capacidade de enxergar fora de si mesmo. É urgente a necessidade de que todos se mobilizem e se unam para diminuir o sofrimento dos mais fracos. Sejam por atitudes individuais ou mobilizações políticas. Busquemos dentro de nós mesmos o dom de sermos bons verdadeiramente. Aqueles que não falam através da nossa linguagem dependem do nosso desempenho.

Rose Mussi

Bichos Blog

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