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“NERUDINHA”: UM POEMA TRISTE

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Apenas quem já viveu a experiência de resgatar um anjo das ruas e levar consigo e esse terminou por fazer parte de sua família, entende o sofrimento das pessoas que veem os outros jogados, como se fossem lixo pelos cantos da cidade.

Numa noite de sábado, dois cães foram vistos na avenida Amazonas, embaixo do viaduto do Anel Rodoviário. Uma professora e seu esposo passavam pelo lugar e os viram lá. Eram eles uma cadelinha sem raça definida, pretinha, que havia sido atropelada e arrastava-se pelo chão, chorando muito. O outro, era um cãozinho mestiço de poodle com alguma outra raça, médio porte, preto, muito peludo. Esse estava quieto. Um senhor, que vendia redes no local, informou que o cão peludo estava ali há uns vinte dias e ele o estava alimentando “como podia”. A professora de Arte decidiu socorrer a cadelinha, pois seus gritos eram de cortar o coração. Encaminharam-se para uma clínica veterinária onde internaram a Pretinha, como passou a chamar-se. Não podendo levar os dois animais, a professora ligou para uma colega de trabalho e informou-lhe o que havia acontecido e sobre o peludo que não conseguiu socorrer. Essa noite uniu as colegas além do magistério. Desde então, tornaram-se amigas.

Era inverno.  A professora recebeu o recado da amiga quando o dia terminava e não conseguiu esperar até o dia seguinte. Por volta de meia noite, ela chegava ao local com seu esposo. Foram procurar o cãozinho. Deixaram o carro num posto de gasolina onde havia um vigia. Ele alertou-os a respeito do perigo do local e do horário, sobre assaltos e violência na região. Os dois encaminharam-se para debaixo do viaduto. A professora encontrou o peludo, enroscadinho num canto da pilastra, próximo a uma latinha suja e vazia. Quando aproximou-se, o cãozinho levantou a cabeça e era difícil acreditar no que se via. Sobre os olhos, duas bolas inchadas e cobertas por pelos e bichos. Um cheiro terrível! Parecia mais um cachorro morto. E, o mais angustiante, um choro, um gemido bem baixinho.

A professora tomou no colo o peludo, abraçou-o para aquecê-lo dentro da blusa de lã e correu em direção ao carro. Seguiram portanto para uma clínica de atendimento 24 horas. Ligaram para o veterinário que avisou aos funcionários que chegariam. Chegando então, diante da recepcionista, tiveram que fornecer alguns dados sobre o animal. A moça perguntou o nome do paciente. O nome?!  Diante daquela situação, quem é que estaria preocupado com um nome?!

Naquele sábado, o casal acabava de assistir ao belíssimo filme “O Carteiro e o Poeta”. O filme no qual um personagem é um dos poetas mais conhecidos e admirados do século XX. O filme é ficção, mas o poeta não. Ainda envolvida por aquele sentimento criado pelo lirismo dos poemas, pelas belas paisagens de uma cidade da Itália, pela luta e dignidade do poeta e dos personagens, a professora respondeu: – Neruda, de Pablo Neruda, o poeta chileno.

Por conseguinte, Neruda foi levado à mesa do veterinário, um jovem muito atencioso. A professora pediu-lhe que aplicasse logo algo para tirar as dores que certamente ele sentia. O doutor fez isso e a seguir, raspou levemente os pelos sobre seus olhos. Como havia informado o senhor que vendia redes, o cãozinho tinha os dois olhos perfurados por vários palitos de dente. Alguma criatura havia praticado aquela crueldade. Não houve uma pessoa sequer que tomou conhecimento do caso que não se revoltou profundamente. Havia, no mínimo, 20 dias que aquele cãozinho estava sobrevivendo com os pedaços de palitos nos olhos, um pouco de arroz e água. O veterinário retirou-os delicadamente.

Neruda ficou internado durante 30 dias. Passou por várias cirurgias que tentavam recuperar um pouco que fosse de sua visão. Todos os dias, recebia a visita da professora e seu esposo. Já os reconhecia. Apesar de não os ver, mexia o rabinho quando ouvia suas vozes. Tratava-se do início de uma relação inesquecível.

No entanto, mesmo depois de tantas tentativas, Neruda não recuperou a visão. Nada! Logo, como o esperado, ninguém se interessou por adotá-lo, nem nenhuma família apareceu para reconhecê-lo. Na verdade, ele já havia encontrado sua família.  Neruda foi adotado pela professora e levado para casa assim que recebeu alta. Depois que tosaram seu pelo por completo, perceberam muitas marcas de queimaduras e cicatrizes de machucados. Muitas memórias teria, com certeza, nosso poeta.

Quando chegou em casa, foi colocado no chão da sala para que pudesse conhecer sua nova residência. Neruda caminhou um pouco para a direita, depois para a esquerda e trombou nos móveis. Percebeu que não viveria como antes. O cãozinho sentou-se, parecia desapontado, confuso. Chorou… Assim como uma pessoa faria se estivesse prevendo um caminho muito difícil pela frente. A professora, sem saber o que fazer, sentou-se com ele e choraram juntos.

Alguns minutos a seguir, Neruda pulou sobre o sofá, surpreendendo sua nova família. E então, alguns dias depois, já sabia onde encontrar sua comidinha e a área, onde faria suas necessidades fisiológicas. Nerudinha, porém, tinha uma dificuldade noturna. Não conseguia dormir só. Nem adiantava tentar. Ele chorava como um bebê. Assim sendo, a professora e ele passaram a dormir bem agarradinhos todas as noites. Até que o menino venceu o medo e então passou a dormir em qualquer lugar, na caminha, no quarto ou no sofá da sala. Acordava de madrugada para comer. Engraçado! Era um hábito da nova mamãe! Muitas vezes, encontravam-se na cozinha.

Três anos voaram! Entre muitas idas ao veterinário (Neruda era um cão cardiopata), inclusive para fazer uma cirurgia de retirada do testículo. Ele teve um tumor. Não era jovem, contudo, vivia alegre, recebia a família na porta, pulando e comemorando a chegada de cada um. Perseguia a mamãe pela casa, quando brincavam de esconde-esconde e a encontrava em qualquer canto. Descobria também os biscoitinhos e brinquedos como se os enxergasse. Adorava passear e sentir o ventinho na janela do carro.

As visitas ao veterinário se tornaram mais frequentes. Havia uma equipe muito competente e carinhosa cuidando do Neruda. Além do proprietário da clínica, um cardiologista, excelente profissional e pessoa e outros veterinários que trabalhavam lá. Num domingo, pela manhã, foi levado à clínica depois de sofrer um AVC. Fizeram alguns exames e constataram que, além de tudo, seria necessária uma cirurgia para a retirada de um tumor na região abdominal. Passou a noite no soro, tomando morfina e dormindo no colo da mamãe. Pela manhã, quando já se aproximava a hora da cirurgia, Neruda teve complicações pulmonares e cardíacas e sua vida estava por um fio. O veterinário explicou que ele estava muito fraco e precisava descansar. Sofria muito e já não havia o que pudesse ser feito. A professora e o esposo, em poucas palavras, deixaram a critério do veterinário de confiança, fazer o que fosse melhor para o Nerudinha.

Todos da clínica conheciam o peludo. Quem não o conheceu ficou sabendo da história. Naquela manhã, a professora voltou para casa amparada pelo marido, sentindo-se vazia e com uma dor, que só quem já perdeu um ente muito amado conhece. Era um pedaço dela que ficava para trás.

No dia 4 de janeiro de 2010, um certo lar ficou mais triste e uma certa professora perdeu o que havia encontrado jogado na rua, debaixo de um viaduto e havia tomado-lhe o coração e ensinado-lhe muito. E, agora mesmo, luta pra conseguir terminar essa história. Nerudinha foi sepultado no Cemitério de Animais em Betim, cidade onde nasceu sua mamãe professora.

Hoje, não há um olhar triste, um corpinho desnutrido que não lembre aquele anjo, que apesar de ter ficado tão pouco, agora faz parte da história e do coração da família. Sua presença é ainda sentida pela casa. Assim fica difícil ser indiferente, não conseguir ver por trás de cada peludo abandonado, um anjo capaz de trazer alegria e sentido à vida de quem tiver a honra de encontrá-lo.

Rose Mussi

Bichos Blog

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